12 novembro 2007

Ter

Levamos a maior parte da nossa vida preocupados com o que podemos ter. Acumulamos bens materiais sob as mais variadas desculpas: são prémios de bom comportamento, prémios de consolação, pequenos mimos e estímulos pelos mais variados motivos, coisas adquiridas porque há saldos, promoções, liquidações de stock ou porque um dia podemos vir a precisar. Possuir bens materiais tornou-se uma medida do nosso sucesso individual.
Esquecemos-nos que pertencemos àqueles pequena parte da população mundial que tem casa, trabalho, acesso à internet, comida sempre que quer e uma infinidade de bens que não consegue sequer enumerar exaustivamente. Também nos esquecemos que, de uma forma perversa como só poderia acontecer na nossa sociedade, nunca foi tão fácil resvalar para a pobreza como agora, apesar de tudo.

Se nos faltar o trabalho de um momento para o outro, gastamos, em pouco tempo, aquilo que economizámos; gastamos, em menos tempo ainda, o pouco que conseguirmos pedir a amigos e familiares, porque as redes informais de apoio são hoje mais ténues do que costumavam ser. Podemos beneficiar de subsídios e apoios. Podemos ter sorte e conseguir um novo emprego. Podemos ter uma rede pessoal tão eficiente que nos segura e nos impede de cair em desgraça. Mas na pior das possibilidades e num reino não tão remoto quanto isso, se perdermos o emprego e as economias podemos perder os bens primeiro, a casa, depois, e a dignidade, por último. Isto num espaço de tempo relativamente curto. E assim se vai parar à rua, refúgio último de toda a indigência, onde se perde a dignidade em menos de um ai. Na rua, é-se menos gente aos olhos de quem passa. Na rua, é-se praticamente invisível, mesmo quando se pede esmola entre os carros parados nos semáforos, nas carruagens do metro, nas estações de comboio... Na rua está-se exposto à inclemência dos elementos, mas isso ainda deve ser o de menos - o pior mesmo deve ser a exposição à indiferença dos nossos semelhantes.

Não, não virei a profeta da desgraça. Mas estou cada vez mais atenta. E cada vez menos indiferente. Porque acredito que quem tem, tem o dever de intervir para atenuar as diferenças. As redes sociais de outros tempos (família nuclear e família alargada, comunidade) têm de ser substituídas por novas redes, baseadas na responsabilidade social de cada um e naquilo que se convencionou chamar de consciência.

1 comentário:

Fausto Fonseca disse...

Neste momento chamamos consciência, porque neste momento as acções feitas na nossa realidade, do nosso país, são a maior parte das vezes feitas por uma consciência pesada. Daí que no nosso país funciona tudo na base do desespero.. cãezinhos que estão prestes a ser abatidos enquanto podiam não ser abandonados, pessoas que estão a morrer da fome enquanto podiam ter apoio de reinserção real atempadamente... e não me estou a queixar só de governos, porque nós todos temos essa responsabilidade individual. E é aí que a nossa sociedade evolui (e em que outras já evoluíram). Quando a consciência pesada é substituída pela responsabilidade de cada um de manter uma cultura de apoio que nos sustentará a todos (nós próprios) em momentos de mais carência.