12 novembro 2007

Da infidelidade

Ai, o amor - por ele se começaram guerras, por ele se mata e se morre, em seu nome se fazem os derradeiros sacrifícios. O amor que nos move, o amor que nos engana, o amor que nos exalta, o amor que nos desilude, o amor que nos muda. Não há emoção mais forte que o amor e nenhuma tão potencialmente duradoura.

O amor tem limites, mais ou menos elásticos, dependendo dos intervenientes de cada relação - é que se o amor em abstracto é infinito, incondicional e absolutamente altruísta, a verdade é que esta não é uma definição que assente à maioria dos amores humanos, pelo que a imposição de limites ao amor é uma condição sine qua non da sua concretização no dia-a-dia. Os amores humanos são materiais, mais do que espirituais. Precisam de constante atenção e cuidados, precisam de provas, demonstrações e sacrifícios. Amar, abstractamente, sem uma forte componente empírica, não chega!

Falava hoje sobre infidelidade, monogamia e os limites do amor com alguém que, no geral, partilha das minhas opiniões e que hoje, só por pouco não me chamou bota-de-elástico.
Dizia-lhe eu que, no geral, o problemas da maior parte das relações não é falta de amor, é falta de transparência - desde que haja acordo das partes tudo é permitido, menos o engano. Tendencialmente, acreditamos que as relações em que nos envolvemos são monogâmicas - é uma espécie de configuração pré-definida. A menos que se assuma claramente o contrário, é desse pressuposto que o comum mortal parte.

Hipoteticamente, até podemos não ser monogâmicos. Mas precisamos de muito jogo de cintura e muita cabeça fria para saber que o nosso parceiro está com outra pessoa, mesmo que pontualmente, e levar isso na boa. E levar na boa não tem só que ver com segurança pessoal, boa auto-estima, inteligência, possibilidade de fazer o mesmo em circunstâncias favoráveis... Tem sobretudo que ver com a negação de competitividade e de comparação – porque no geral, o que nos irrita e magoa na infidelidade é a ideia de que ela existe porque, de alguma forma, fomos incapazes de preencher todas as lacunas, necessidades e/ou expectativas do parceiro que temos.

Somos parte duma sociedade competitiva e de aparências, onde ter é mais importante do que ser, porque ser alguma coisa é muito complicado e precisa de muito tempo para ser devidamente apreciado. Ter uma pessoa (ter um relacionamento com alguém) é um sinal de algum poder, nem que seja apenas para nós mesmos – precisamos de alguma validação externa, e ter alguém é uma forma de validação. Que esse alguém nos troque por outrem (ainda que momentaneamente), é difícil de gerir, sobretudo quando/se essa troca não é consentida. E mesmo que seja... Em algumas coisas, ainda somos incrivelmente das cavernas – partilhar não é dos nossos fortes. Partilhar parceiros, mesmo que ocasionalmente, sem que existam grandes afectos em jogo em relação à terceira pessoa, ou pelo menos, sem que existam grandes mudanças no horizonte, é ainda assim, um desafio que dizemos ser capazes de levar na boa, mas que quando nos acontece não sabemos levar com igual facilidade. Somos bichos territoriais, mesmo quando não estamos permanentemente a marcar território.

Raras são as pessoas que aceitam MESMO a não-monogamia do seu parceiro, sem ter sentimentos de retribuição, sem amarguras relativamente à terceira parte, sem a clássica dor de corno. E mesmo as que existem, não sei se são supremamente indiferentes, se são supremamente inteligentes, ou se apenas não amam. Amar sem desejos de alguma posse do objecto amado é demasiado idealista para ser verdadeiro – amor sem expectativas de retribuição e de alguma posse só existe em fantasias!

Para a maioria de nós, a infidelidade do parceiro acaba sempre por ser entendida como um reflexo na nossa imperfeição. E mesmo que essa infidelidade não tenha tido como propósito atingir-nos ou magoar-nos, acaba por fazê-lo, porque em última análise nos rouba a ideia de que somos únicos e especiais para aquela pessoa. Por muito ingénua que esta ideia pareça, creio que é a conclusão mais imediata que se retira de um qualquer caso de infidelidade - o que não suportamos, mais do que tudo, é a ideia de perder a unicidade.

5 comentários:

Calíope disse...

Cada um é como cada qual e se souber viver assim ninguém tem nada a ver com isso.

Na verdade não queria comentar nada, mas só dizer q li o post TODINHO!!!

Borboleta disse...

Calíope: a questão é justamente essa - só podemos viver em paz com aquilo que conhecemos. as surpresas nem sempre são uma coisa boa.

Este texto não pretende ser uma apologia da monogamia - é mais uma defesa de um ponto de vista numa conversa em que se debatia os efeitos da não-monogamia nas relações: não temos de ser todos monogâmicos, mas temos mesmo de ser honestos à partida.

Anónimo disse...

Parabéns pelo post. Acho que este foi o teu melhor post até hoje, na minha opinião. Imagina como não teria sido se esse teu amigo te tivesse chamado mesmo de bota-de-elástico! ;o)

Beijos!

Fausto Fonseca disse...

Não há nada que não se resume à honestidade entre o casal:P Um dos individuos do casal até pode gostar de fazer sexo com elefantes. Se o outro souber e concordar não há problema:) O facto de sermos possessivos nas relações é o que fomos habituados a ser. Noutras sociedades o homem pode ter muitas mulheres e as mulheres sentem-se orgulhosas em ser uma entre várias. Sejamos o que nos apetece ser mas com transparência, porque a sujidade no espelho é só quando nós próprios não somos transparentes.

ceci disse...

:) Post Fantástico, mesmo! ;)